CMV (custo de mercadoria vendida) é quanto do seu faturamento vai embora em insumos. A conta é uma divisão: CMV (%) = custo dos insumos ÷ faturamento × 100. Se o mês faturou R$ 80.000 e os insumos consumidos custaram R$ 20.000, o CMV foi de 25%.
Para um prato, a lógica é a mesma em escala de porção: custo da porção ÷ preço de venda. Uma porção que custa R$ 12,17 vendida a R$ 38,90 tem CMV de 31,3%. Para chegar ao preço, faça a conta ao contrário: custo da porção ÷ CMV-alvo.
A parte difícil não é a fórmula. É saber o custo verdadeiro da porção, com as perdas da limpeza e do preparo, e conferir no fim do mês se a cozinha gastou o que a ficha técnica prometia. Este guia percorre tudo: ficha técnica, fator de correção, as faixas de referência da Abrasel, três jeitos de precificar, o CMV do período e um exemplo completo em reais que você pode copiar.
A fórmula do CMV
O CMV aparece em duas escalas, e as duas usam a mesma divisão.
Por prato, para precificar:
CMV do prato (%) = custo da porção ÷ preço de venda × 100
Preço de venda = custo da porção ÷ CMV-alvo
Por período, para conferir o mês ou a semana:
CMV (R$) = estoque inicial + compras do período − estoque final
CMV (%) = CMV (R$) ÷ faturamento do período × 100
A cartilha de CMV que a Abrasel publicou em janeiro de 2026 resume a ideia: CMV não é o que você comprou nem o que está parado no estoque, é o que saiu do estoque e virou venda. No exemplo da própria cartilha, estoque inicial de R$ 5.000, mais R$ 7.000 de compras, menos estoque final de R$ 5.500, dá um CMV de R$ 6.500 no mês.
O que entra e o que fica de fora
- Entra: alimentos, bebidas e os insumos ligados diretamente à produção do que foi vendido.
- Fica de fora: gás, energia, aluguel, folha de pagamento, material de limpeza. São despesas, não mercadoria.
- Decida e mantenha: embalagem de delivery e refeição de funcionário. Muitos restaurantes põem a embalagem no custo da porção e registram a refeição da equipe à parte. O que importa é fazer sempre igual, senão um mês não se compara com o outro.
Se você vende comida e bebida, calcule o CMV da cozinha e o do bar separados. As faixas saudáveis são diferentes, e um CMV único esconde qual dos dois está vazando.
Como custear um prato: ficha técnica, fator de correção e rendimento
O preço da nota do fornecedor é o preço do insumo bruto. O que vai para o prato é o insumo limpo: sem casca, sem aparas, sem espinha. Quem custeia pelo peso bruto enxerga todo prato mais barato do que ele é.
Fator de correção (FC)
O fator de correção mede a perda no pré-preparo:
FC = peso bruto ÷ peso líquido (limpo)
Custo por kg limpo = preço de compra por kg × FC
A apostila de ficha técnica da UFMT usa o tomate como exemplo: 0,173 kg bruto viram 0,138 kg limpos, um FC de 1,25. Se o tomate custa R$ 9,00 o quilo, o quilo limpo custa R$ 11,25. Existem tabelas publicadas de fator de correção, mas a mesma apostila recomenda que cada estabelecimento monte a sua, pesando os próprios insumos, e a revise periodicamente. A tilápia de um fornecedor não perde o mesmo que a de outro.
Alguns guias usam o rendimento no lugar do FC: peso líquido ÷ peso bruto. É o inverso (um FC de 1,25 equivale a um rendimento de 80%). Use um ou outro, nunca os dois na mesma planilha.
Índice de cocção (IC)
IC = peso cozido ÷ peso limpo
Carne perde água e encolhe no fogo (IC abaixo de 1); arroz e feijão absorvem água (IC acima de 1). A regra prática: custeie a porção no mesmo estado em que você a pesa. Se a cozinha porciona 180 g de tilápia crua e limpa, custeie 180 g limpos. Se porciona 150 g de costela já cozida e desfiada, divida 150 g pelo IC para saber quanta carne limpa isso consumiu, e custeie esse peso.
Passo a passo da ficha técnica
- Escreva a receita padrão: cada ingrediente, na quantidade que a equipe realmente usa. Se cada cozinheiro monta o prato de um jeito, padronize antes de custear.
- Faça o teste de rendimento dos insumos que perdem peso: pese bruto, limpe, pese de novo.
- Use o preço da última nota, não o de três meses atrás.
- Calcule o custo por quilo (ou litro) limpo com o FC.
- Multiplique pela porção de cada ingrediente.
- Custeie as sub-receitas por lote: molho, purê, farofa, massa. Custo do lote ÷ rendimento do lote = custo por grama ou mililitro.
- Some tudo e inclua uma linha para o que vai “a gosto” (sal, óleo, ervas). É pouco por prato, mas não é zero.
A Abrasel separa dois usos da mesma ficha: a ficha técnica operacional, para a equipe (ingredientes, quantidades, modo de preparo, tempo e utensílios), e a ficha técnica gerencial, para a gestão (custo por ingrediente, custo total, CMV do item e base para precificação). O modelo abaixo é o gerencial.
Modelo de ficha técnica para copiar
| Ingrediente | Preço de compra (R$/kg ou L) | FC | Custo por kg limpo (R$) | Porção limpa (kg ou L) | Custo na porção (R$) |
|---|---|---|---|---|---|
| Itens a gosto (estimativa) | — | — | — | — | |
| Custo total da porção | |||||
| Preço de venda | |||||
| CMV do prato (%) | |||||
| Margem de contribuição (R$) |
Anote no rodapé a data da última atualização. Ficha sem data é ficha em que ninguém confia.
Qual é o CMV ideal?
Não existe um número único, e a própria Abrasel avisa que buscar “o CMV ideal” como valor universal é uma armadilha. O que existe são faixas de referência. As da cartilha de janeiro de 2026:
| Categoria | Faixa de referência do CMV |
|---|---|
| Pratos (cozinha) | 25% a 40% |
| Bebidas não alcoólicas | 10% a 30% |
| Vinhos | 30% a 50% |
| Chope e cervejas | 30% a 35% |
| Destilados | 10% a 20% |
Fonte: Abrasel, cartilha Custo de Mercadoria Vendida (CMV) para bares e restaurantes, janeiro de 2026.
A faixa da cozinha é larga porque os negócios são diferentes. Onde você fica dentro dela depende de algumas escolhas:
- A proteína manda. Peixe, frutos do mar e cortes nobres puxam o CMV para cima; massas, arroz e pratos à base de legumes puxam para baixo.
- Ticket e posicionamento. Um prato mais caro pode ter CMV mais alto e ainda deixar mais dinheiro por venda (veja margem de contribuição, na próxima seção).
- Produção própria. Fazer pão, molho e sobremesa na casa costuma baixar o CMV e aumentar a mão de obra. Comprar pronto faz o contrário.
Os dois extremos merecem atenção. Um CMV alto pode indicar preço defasado, compra mal feita ou desperdício. Um CMV baixo demais, diz a Abrasel, pode sinalizar porção insuficiente, queda de qualidade ou preço desalinhado com o mercado.
Como definir o preço: CMV-alvo, mark-up e margem de contribuição
1. Pelo CMV-alvo
O jeito mais direto: escolha o CMV que você quer para o prato e divida.
Preço = custo da porção ÷ CMV-alvo
Uma porção de R$ 10,00 com CMV-alvo de 30% dá R$ 33,33. É rápido e serve de ponto de partida, mas não diz nada sobre impostos, taxas e despesas fixas.
2. Pelo mark-up divisor
É o método que as apostilas brasileiras de ficha técnica ensinam, e ele põe na conta o que o CMV-alvo deixa implícito. Some, como percentual do faturamento, tudo que sai de cada venda além do insumo, mais o lucro que você quer, e tire de 100%:
Mark-up divisor = 1 − (impostos sobre a venda + taxas de cartão e apps + despesas fixas + lucro desejado)
Preço = custo da porção ÷ mark-up divisor
Mark-up multiplicador = 1 ÷ mark-up divisor
Um exemplo com números inventados: impostos sobre a venda de 8%, taxas de cartão de 3%, despesas fixas (folha, aluguel, energia, contador) de 45% e lucro desejado de 12%. A soma dá 68%, o mark-up divisor é 0,32 e o multiplicador é 3,125. Uma porção de R$ 10,00 sai a R$ 31,25.
Repare que um divisor de 0,32 equivale a um CMV-alvo de 32%. O mark-up só mostra de onde esse número vem. Como lembra o guia de precificação da Stone, os tributos precisam entrar como percentual das vendas. Esse percentual depende do regime tributário e da faixa de faturamento do seu negócio: peça o número ao seu contador e não use o do exemplo.
3. Pela margem de contribuição
Margem de contribuição, na engenharia de cardápio, é o preço menos o custo direto do prato, em reais. O método foi criado por Michael Kasavana e Donald Smith por volta de 1982, na Michigan State University, e classifica cada item por popularidade e por margem, segundo o material de engenharia de cardápio da AHLEI.
A lição é simples: as contas se pagam com reais, não com percentuais. Compare:
| Prato | Custo da porção | Preço | CMV | Margem de contribuição |
|---|---|---|---|---|
| Espaguete ao sugo | R$ 4,20 | R$ 29,90 | 14,0% | R$ 25,70 |
| Tilápia grelhada | R$ 12,17 | R$ 38,90 | 31,3% | R$ 26,73 |
O espaguete tem um CMV bonito, mas cada tilápia vendida deixa mais dinheiro. A AHLEI faz o mesmo alerta: os itens de maior lucro bruto costumam ser os mais caros e ficar na parte alta da escala de CMV, e empurrar só os pratos de CMV baixo tende a derrubar o ticket médio.
Depois da conta, o mercado
A fórmula dá o piso, não o preço final. Arredonde para um valor que faça sentido no cardápio, veja o que os vizinhos cobram por algo parecido e pergunte se o seu cliente paga. Se a conta exige um preço que ninguém aceita, o problema está na receita, na porção ou no fornecedor, não na calculadora.
Exemplo completo: tilápia grelhada com arroz, purê e legumes
Todos os números abaixo são inventados para o exemplo, mas plausíveis para um restaurante à la carte no Brasil. Troque pelos seus.
Passo 1: ficha técnica com fator de correção
| Ingrediente | Preço de compra | FC | Custo por kg limpo | Porção limpa | Custo na porção |
|---|---|---|---|---|---|
| Filé de tilápia | R$ 45,00/kg | 1,10 | R$ 49,50 | 0,180 kg | R$ 8,91 |
| Arroz branco (cru) | R$ 6,00/kg | 1,00 | R$ 6,00 | 0,080 kg | R$ 0,48 |
| Batata (purê) | R$ 5,50/kg | 1,20 | R$ 6,60 | 0,150 kg | R$ 0,99 |
| Abobrinha e cenoura | R$ 6,00/kg | 1,15 | R$ 6,90 | 0,100 kg | R$ 0,69 |
| Manteiga e leite do purê | sub-receita | — | — | — | R$ 0,60 |
| Azeite, alho, limão, sal, ervas | estimativa | — | — | — | R$ 0,50 |
| Custo total da porção | R$ 12,17 |
Passo 2: preço pelo CMV-alvo. Com alvo de 32%: R$ 12,17 ÷ 0,32 = R$ 38,03. Arredondado para o cardápio: R$ 38,90.
Passo 3: confira o resultado. CMV do prato: R$ 12,17 ÷ R$ 38,90 = 31,3%. Margem de contribuição: R$ 38,90 − R$ 12,17 = R$ 26,73.
Passo 4: teste outros preços antes de decidir.
| Preço no cardápio | CMV do prato | Margem de contribuição |
|---|---|---|
| R$ 34,90 | 34,9% | R$ 22,73 |
| R$ 38,90 | 31,3% | R$ 26,73 |
| R$ 42,90 | 28,4% | R$ 30,73 |
Passo 5: veja o que o fator de correção fez. Custeada pelo peso bruto (R$ 45,00 × 0,180 kg), a tilápia sairia a R$ 8,10 por porção em vez de R$ 8,91. Parece pouco. Em 600 pratos por mês, só no peixe, são R$ 486 que a ficha não mostraria.
Passo 6: anote a data na ficha. Quando a nota da tilápia mudar, refaça a linha e o total antes de mexer no preço.
CMV do período: conferindo a ficha com a realidade
A ficha técnica dá o CMV teórico: o que a cozinha deveria gastar, com porção padrão e sem desperdício. O inventário dá o CMV real: o que ela gastou. A Abrasel chama a distância entre os dois de uma das maiores armadilhas da gestão gastronômica, e diz que gestão eficiente é justamente reduzir essa diferença.
Como calcular os dois
CMV real (um mês, números inventados):
- Estoque inicial: R$ 18.400
- Compras do mês: R$ 41.600
- Estoque final: R$ 17.000
- CMV: R$ 18.400 + R$ 41.600 − R$ 17.000 = R$ 43.000
- Faturamento: R$ 140.000
- CMV real: R$ 43.000 ÷ R$ 140.000 = 30,7%
CMV teórico: para cada prato, custo da porção na ficha × quantidade vendida no mês. Some tudo e divida pelo mesmo faturamento. Digamos que dê 28,5%.
A diferença é de 2,2 pontos. Sobre R$ 140.000, são R$ 3.080 no mês que saíram do estoque e não viraram venda.
De onde vem a diferença
A cartilha lista o que empurra o CMV real para cima: desperdício, erros de porcionamento, avarias, perdas não registradas, desvios e furtos. Na prática, acrescente cortesias e refeições de funcionários sem registro, e fichas com preço antigo, que baixam o teórico sem mudar o real.
Regras para o número ser confiável
- Conte o estoque sempre no mesmo momento, por exemplo no último dia do mês, depois do fechamento.
- Avalie o estoque pelo preço da última compra e mantenha o critério todo mês.
- Conte tudo, inclusive o que está na geladeira da praça e as sub-receitas prontas.
- Separe cozinha e bar também aqui.
- Acompanhe semanal ou mensalmente, como recomenda a Abrasel. CMV anual chega tarde demais.
Sem inventário, o CMV é chute. Compras do mês não são CMV: o mês em que você encheu o estoque vai parecer um desastre, e o seguinte, um milagre.
CMV, mão de obra e margem de lucro
O CMV é a maior linha de custo que você controla prato a prato, mas não é a única. A Abrasel dá uma regra de ouro: CMV mais mão de obra não devem ultrapassar 65% da receita bruta. Acima disso, o negócio entra em zona de risco.
Um exemplo: CMV de 31% e folha (salários, encargos e benefícios) de 30% somam 61%. Sobram 39% para aluguel, energia, gás, impostos, taxas, manutenção e, no fim, lucro. Se o CMV sobe para 36% sem mudar mais nada, a soma vai a 66%, e o mesmo faturamento passa a pagar menos contas.
A cadeia inteira, simplificada:
Faturamento
− CMV
= Margem sobre o insumo
− Mão de obra
− Despesas fixas (aluguel, energia, contador…)
− Impostos e taxas
= Lucro
A margem do setor é apertada. Na pesquisa mensal da Abrasel, 42% dos bares e restaurantes tiveram lucro em julho de 2026, 37% ficaram no equilíbrio e 20% tiveram prejuízo. Com tanta gente operando perto do zero a zero, dois ou três pontos de CMV costumam decidir de que lado da linha o mês termina.
Erros comuns
- Custear pelo peso bruto. Sem fator de correção, todo prato com casca, osso ou apara parece mais barato do que é.
- Ficha técnica sem atualização. O fornecedor reajustou e a ficha não. A Abrasel descreve o efeito como uma falsa sensação de lucro.
- Tratar compras como CMV. Sem estoque inicial e final, o número oscila com o ritmo das compras, não com o que a cozinha fez.
- Um CMV só para cozinha e bar. Chope, destilados e pratos têm faixas diferentes; misturados, ninguém sabe onde está o problema.
- Esquecer o que não é ingrediente principal. Sub-receitas, itens a gosto, guarnição, couvert, embalagem.
- Porcionar no olho. A Abrasel aponta o porcionamento inconsistente como um dos vilões mais subestimados: gramas a mais parecem nada até virarem milhares de reais no mês.
- Olhar só o percentual. Um prato de CMV baixo e margem pequena paga menos contas que um de CMV mais alto e margem maior.
- Precificar sem impostos e taxas. Se o preço saiu só do CMV-alvo, confira pelo mark-up se ele cobre o que sai de cada venda.
Onde o Platevio entra (e onde não entra)
Sendo direto: o Platevio não calcula CMV. Não controla estoque, não faz inventário, não dá baixa de insumos quando um prato é vendido, não monta ficha técnica e não calcula custo de receita nem margem. Também não emite NFC-e nem calcula impostos. Tudo o que este guia descreve você vai fazer numa planilha, no papel ou num sistema de custos próprio para isso.
O Platevio é um sistema de PDV para restaurantes que roda no navegador. Três coisas dele ajudam no trabalho acima, sem substituí-lo:
- O registro do que foi vendido. Cada pedido fica guardado com seus itens e adicionais, como foram enviados à cozinha e como foram pagos, e pode ser consultado de qualquer navegador. É dali que você tira as quantidades vendidas para o CMV teórico. O Platevio não soma essas quantidades por prato nem por período e não tem relatórios de desempenho de itens: a contagem fica com você.
- Preço fácil de mudar. Quando a ficha mostra que um prato ficou para trás, quem tem permissão ajusta o preço no cardápio de qualquer celular, tablet ou computador.
- O preço fica gravado no pedido. O valor é copiado para o pedido no momento em que ele é feito, então mudar o preço no meio do serviço não altera o que as contas já abertas custam.
Não há preço programado nem promoção automática: toda mudança de preço é feita à mão. Se o resto serve para você, veja o preço do Platevio: Gratuito. Sem cartão, sem plano.